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Para bem ou mal, Street League é realidade

O evento que vem ao brasil no próximo mês é envolto em polêmicas e discussões

Mais uma vez o Brasil será sede de uma etapa de Street League. O evento, que é um dos mais prestigiosos no skate, acontecerá nos dias 18 a 22 de Setembro  no Pavilhão de Exposições do Anhembi. Não é a primeira vez que o brasil recebe o evento, mas sim a primeira  final do circuito, que teve sua primeira edição em 2010. Mas como surgiu, funciona e o que a Street League representa? 

Marca consolidada

Pode-se dizer que o Street League é o campeonato sucessor da Maluf Money Cup, extinta em 2011. Naquele período existiam apenas alguns circuitos profissionais de skate, principalmente no street. Nomes como Tampa Pro, tinham um grande peso, mas nenhum tinha a proporção, visibilidade e investimento que a street league tomaria.

Final do Tampa Pro 2019, campeonato lendário

Foi em 2010 que um profissional aposentado e apresentador da MTV chamado Rob Dirdek, que era um nome revelante no skate dos anos 90 e andava pela falecida Alien Ware, decidiu mudar o jogo. Em 2010, em parceria com Brian Atlas, empresário e BI, deu como aberta a Street League. A ideia era pegar um esporte underground, em ascensão mas ainda estigmatizado e transformar em uma atração de estádio, rentável e sustentável como uma NBA ou MLB.

Do ponto de ista econômico deu certo. A primeira edição aconteceu em Glendale, no então “Jobing.com Arena”, com lotação de 18 mil pessoal. A transmissão foi feita pela FOX Sports e contou com investimentos da Chevy, Nixon, Gopro, Monster, entre outros. Era inegável que o modelo estava dando certo, o dinheiro saía com os grandes eventos mas entrava com um público enorme, patrocínios e visibilidade. 

Primeira Street League

O skate, street principalmente, nunca tinha levado uma bolada como essa. Por mais que nos anos 80, no ápice de Rodney Mullen, os Bones brigade boys, Tony alva, fossem transmitidos em rede nacional americana, uma liga de skate com esse tamanho era impensável, assim como as premiações. No primeiro ano quem levou os 200 mil dólares foi Nyjah Huston, na época com 15 anos.

Uma das primeiras Video Parts de Nyjah Huston pela Element

Em 2013 a SLS como marca explodiu. O time de basquete Boston Celtics e o São Francisco 49ers virar stakeholders da marca e a Nike entrou na jogada. No final daquele ano a revista “Sports Business” avaliou a liga em 12 milhões de dólares. 

Faz bem para o skate?

Mas será que transformar o skate em produto mantém uma sustentabilidade dentro da cultura? Puristas como Jeff grosso afirmam que não.

“A coisa toda gira em torno de um aventura pra fazer dinheiro, desde o começo. Eles estão no comércio de promover o que eles promovem”, afirmou Grosso, um dos nomes mais influentes da história do skate, um “Mogul” do vert. 

Em entrevista a revista Vice, ele considera a liga uma forma de anular e deixar de fora diversos skatistas que não se encaixam ali. 

Skatista como Grosso seria um exemplo de estilo excluído da liga. Dirdek, destaca que realmente a liga não é para todos. O formato certinho, como obstáculos definidos, rampas, hubas e corrimões estritamente colocados, favorecem skatista técnicos e com uma consistência de manobras durante a competição. Funcionaria como uma formatação de estilo e manobras. 

Pista da etapa de Los Angeles, 2019

No formato atual, que mudou bastante durante os anos, cada parada do Tour conta com o round classificatório, com 75 participantes. Os dez melhores seguem para as quartas de final e se juntam aos skatista entre a 21ª e 38ª posições no ranking de 2018 e mais quatro bem colocados no ranking.

Entenda um pouco melhor o formato desse ano

Os dez primeiros desta fase avançam para as semis e disputam contra os primeiros 20 colocados do ranking de 2018. Os oito competidores com melhores notas passam para a final.

O mais polêmico de tudo é o criticado método de avaliação, chamado de ISX: O sistema de pontuação instantânea. Mesmo tendo cinco juízes muito bem qualificados e com reputação incontestável, o ISX é um sistema de computador que analisa passo a passo as manobras realizadas. Ele identifica diversas situações, como por exemplo se a manobra foi realizada perfeitamente, manobra acertada na primeira tentativa, etc. O fator humano é contabilizado mas nem tanto; os skatistas são avaliados por máquinas. 

Esse sistema irrita muita gente, como Tommy Guerrero, que andava pela Powell Peralta, fazia parte da Bones Brigade e é considerado um dos pais dos skate moderno. Ele disse em 2013 ao NY Times: “Para mim esse sistema é estéril… Eu vim de uma abordagem muito diferente do skate, era sobre o momento, não tentar acumular pontos. Então Groso completa: “Com a SLS é sobre aprender as 3 ou 4 manobras que dão mais pontos e batem o resto. É fórmula, é ginástica”. 

Por outro lado, muito skatistas não vem a liga com purismo. Claro que não é viável para todos, assim como nem todos jogadores de futebol jogam na Premier League ou Serie A. Afinal passamos a lidar com um ranking remunerado, gostemos ou não.

Mesmo que não funcione para todos, a liga da possibilidade a alguns viverem profissionalmente:

Em entrevista a vice, o COO da liga, Atlas fala sobre o sistema: “ Os pros da SLS são um dos únicos profissionais que realmente conseguem viver disso e tirar um dinheiro significativo”. Todos os campeonatos pagavam, desde sempre, mas só a liga consegue chegar a esse nível. 

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É só olhar o Instagram do maior ganhador da liga, Nyjah Huston, que esbanja como se fosse um jogador do Barcelona. O COO completa que a competição sempre fez  parte da cultura do skate, e os que criticam deveriam ver esse fato.  

O Brasil é um desse beneficiários da SLS. O surgimento de nomes como Felipe Gustavo, Letícia Bufonni, Kelvin Hoeffler e agora a fadinha do skate, que ganhou a última edição da competição feminina com apenas 11 anos, se dá muito por conta da SLS especificamente. Para países que não tem uma cultura do skate tão estabelecida, campeonatos desse tipo podem ser a chave para alcançar a sobrevivência e visibilidade, visto que o outro meio, as “Video Parts”, estão acabando.. Mas isso é outro papo.

Estarei presente na proxima edição e darei uma análise um pouco mais pessoal sobre a liga e quem sabe trarei alguns participantes.

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Democracia do skate

Praça Roosevelt, sp. Photo bt: Guilherme Salviano


Aceitação e diversidade dentro de uma cultura marginalizada.

“Só quem já andou de skate sabe como é.  Se tem o boyzinho, com as roupas tudo de marca e o molequinho da perifa, todo fudido, não muda nada. O role continua”. Afirmou, Vinicius Motta, skatista da cidade de Campo grande. “Isto é a democracia do skate; pobre, rico, preto ou branco, com o skate no pé vira brother”.

Um pouco de História

A convergência entre o skate e a democracia tem longa data. O skate chegou no brasil na Década de 60, ainda muito caro, limitado as classes que viajavam ao exterior. Após a queda da ditadura militar, tudo mudou. Quando Tancredo neves assumiu a presidência o Brasil tinha 41% de sua população abaixo de 25 anos. Então, inspirados pela cultura norte América, o skate começou a ganhar vida como expressão, e junto ao rap e o punk, virou ícone da contracultura paulista. Roosevelt, Anhangabaú eram os pontos máximos da expressão.

Anhangabaú, sp. Um dos picos mais clássicos o skate no brasil.
Photo by: Dornicke

Antes de Collor assumir a presidência o skate brasileiro vivia uma era de ouro. Em 89 o brasil tinha acabado de mostrar sua força no esporte. Com uma delegação de atletas conquistou um histórico quarto lugar com Lincoln Ueda na categoria vertical no campeonato mundial da Alemanha. Porém, com as novas políticas econômicas de Collor, os patrocínios, viagens e campeonatos cessaram. O skate Brasileiro caiu no esquecimento da mídia.  

Lincoln Ueda (2012)
Photo by: Alex Carvalho

Neste ponto começa a resistência do skate. Apesar de longe das mídias, o esporte cresceu. “Foi minha salvação” disse Luan de oliveira, hoje, um dos maiores skatistas do mundo, nascido em Porto alegre e órfão. Por fazer parte da contracultura começou a agregar todos aqueles que não se encaixavam. Assim é possível analisar dentro da cena diversos grupos, que no skate puderam encontrar um ambiente amigável, para alguns literalmente uma família. Como disse o skatista Bob Burnquist “skate não é ponto, não é ganhar, é arte porra”. Um documentário que explica bem esse esse processo é o Dirty Money

Vídeo Part Luan Oliveira pela revista Thrasher, que já virou um clássico.

            Competição?

Nos tempos de escola, todos tivemos o momento da escolha de times na educação física. Os mais fortes, atléticos sempre eram escolhidos primeiro, e então ficavam todos aqueles que não se encaixavam no perfil desejado. Ou então no jogo de basquete em que os mais baixinhos são sempre rejeitados. No skate a coisa funciona de uma forma diferente, sua força física, tamanho, não são elementos definidores do seu sucesso no Meio.

O skate é praticado individualmente, o que o tornaria extremamente não cooperativo.  Mas não é o que acontece. Matheus Souza de 22 anos explica sua visão: “ao mesmo tempo que o skate é um esporte individual, é um esporte que está todo mundo com todo mundo, então, até o que perdeu sabe apreciar o que ganhou, o que é raro em outros esportes. Geralmente é um contra o outro. No skate sou eu contra mim mesmo e você contra você mesmo, é tipo uma superação, e se você vende essa batalha contra você mesmo, todo mundo fica feliz. Isso que é o da hora”. A visão do skatista para com outros que competem com ele não é como seu adversário, mas sim alguém que esta na mesma batalha que ele. Alguém que também esta se esforçando ao máximo para conseguir a trick mais bonita, a que mais tem estilo. Apesar de existir formas de sucesso dentro da cultura, o respeito e amizade são soberanos. Continua Natan Carrara, 16 anos e skatista de amador de Bauru sobre a diferença do skate:  

Natan Carrara, Bauru, sp.
Photo: Guilherme Carrara

“é diferente o skate de outros esportes. O surf, BMX, e outros esporte radicais são bem mais inclusivos. Eles são individuais, mas ao mesmo tempo não são. As pessoas tão sempre te ajudando a mandar uma manobra, em campeonato as pessoas te apoiam em vez de ir contra para ganhar de você, é bem diferente, é mais um estilo de vida do que uma competição”.

A visão democrática

            Por conta de a cena do skate brasileiro ter vivido a grande depressão da dec. de 90 ele se tornou muito malvisto socialmente. A periferização e o preconceito associaram a cultura ao consumo de drogas e a um estilo de vida destrutivo e sem perspectiva.  “Meu pai não me apoiava no skate, queria que eu fizesse faculdade, skate para ele era coisa de vagabundo maconheiro”, Vinicius Bomfim. Entretanto, apesar de ser prejudicial, o preconceito construiu o skate como ele é. A cena passou a ser descentralizada e descaracterizada. “Tínhamos os “gangsters”, o pessoal do punk, aí começou a chegar o pessoal rebelde e foi diversificando”. A marginalidade juntou diversos tipos de grupos permitindo um diálogo através do esporte. A cena criou vida própria.

            Com o tempo o esporte juntou as mais diferentes classes. “Tenho amigos de todas as classes econômicas e sociais no skate. sem exceção!”, disse Matheus Souza, ou então “ando com pessoas de todo jeito, principalmente de classes econômicas abaixo de mim”, Vinicius Bomfim. Características que definem a cena do skate brasileiro.

Vídeo Part Higor Conte, skate Bauruense.

Em qualquer caso, o skate funciona como um remédio social, em que todo tipo de gente é aceita. Não apenas um esporte, mas sim um estilo de vida, uma forma de visualização do mundo. Andar sobre a quatro rodas, flutuando sobre as ruas de asfalto, é muito mais do que um movimento físico. Envolve sentimento, emoção, e a movimentação de toda uma cultura e história que vem ao seu redor.

          Enfim, comente o que acha sobre o assunto. Se gostou do conteúdo, compartilha, deixa aquele comentário. Se não gostou coloque sua opinião humildemente. É isso e até a próxima.

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“Um rapaz latino americano” na cidade grande.

Um muleque do interior tentando conhecer um pouco da cena do skate em São Paulo. 

Quem sou (ou pensos ser)?- Talvez tenha ouvido discos demais, ou não tenha um amigo sequer que acredite em mim, mas, o mais importante é que vim do interior e não tenho um trocado no bolso. Sempre tentei me envolver o máximo com as coisas (e falhei em quase todas), mas isso me deu uma quedinha por observar, escrever e fotografar. Meio compulsivo ou maluco escrevo sobre o que quero, do que gosto e não gosto.

Quem brisa é essa?- Então, este blog surge como de uma vontade de escrever sobre o que gosto, um refúgio das pautas estressantes e desgraçadas do dia a dia. Agora, o que gosto é uma pergunta capciosa! Nem ao menos sei qual é minha cor preferida ou se escolho comida quente ou gelada (menos pizza, que, com certeza é melhor gelada). Então vou escrever do que sempre esteve presente, pelo menos por uma boa parte da minha vida, O skate e a cultura em volta dele (Música, Lifestyle, Moda, drogas e temas polêmicos).

Qual o objetivo?- Olha, o importante aqui é ser polemico, tentar informar, abrir discussões e entrar um pouco nessa cultura que ainda é tão estigmatizada e nichada.

Faz o seguinte, se gostou ou se identificou com o que escrevo e produzo aqui, comenta ao máximo e compartilha nas suas redes sociais! Minha vida está muito corrida… Estou tentando ser algo ou me encaixar em algum lugar, mas, prometo que responderei  em algum momento oportuno. Também aceito sugestão de pautas e roles que vão acontecer na cidade. 

Abraço a todos (se tiver alguém), bora andar de skate e aproveitar esse resto de vida. 

Ps: escrevi isso ouvindo um Dead Kennedys no volume máximo. Neste contexto tudo fazia sentido, talvez se estivesse apaixonado seria diferente.

Imagem: Guilherme Carrara.

Festa brasileira na Street League

No último final de semana São Paulo recebeu a Street League, um dos maiores eventos de skate dos últimos anos- Entenda mais aqui-. E diante de um público empolgado, o skate brasileiro mostrou que está muito vivo, principalmente o feminino, que levou a dobradinha do pódio com Pamela Rosa e Rayssa Leal.

O evento foi sediado no Pavilhão de exposições do Anhembi e o público pode comparecer no sábado e domingo, respectivamente as semifinais e finais. As baterias contaram com a elite de skate, sejam eles novos ou velhos. Figuras que os brasileiros tem a possibilidade de ver normalmente.

Resultados

Foto: Guilherme Carrara

Essa foi a terceira edição da SLS no Brasil, as duas primeiras sendo Foz do Iguaçu e Rio de Janeiro, contou com um número absurdo de brasileiros, que marcaram presença nas nas etapas iniciais. Foram 14 brasileiros nas quartas de finais do masculino, mas apenas um na final e 3 meninas do brasil na grande final.

Masculino

Foto; Guilherme Carrara

No masculino tivemos um skate de nível absurdo de skate, talvez com o maior número de “9 clubs” ad história. A final foi de tirar o fôlego, com possibilidade de primeiro lugar a cada manobra. A classificação contou com Nyjah Huston, que acabou levando a competição com uma pontuação quase perfeita; Yuto Horigone, que tem brigado nas cabeças a algum tempo; Gustavo Ribeiro, com um nível técnico que não se via desde Shane O’Neill e um das notas mais altas, um 9.7 em um Switch Crooked saindo de nollie flip na hubba maior; Jamie Foy, que trouxe um pouco do skate de rua com grinds perfeitos no cano; Yukito Aoki; Angelo Caro e Dashawn Jordan, que se classificou em primeiro nas semifinais.

1.) Nyjah Huston (USA) 36.9
2.) Yuto Horigome (JPN) 36.6
3.) Gustavo Ribeiro (POR) 36.2
4.) Kelvin Hoefler (BRA) 36.0
5.) Jamie Foy (USA) 34.8
6.) Yukito Aoki (JPN) 33.6
7.) Angelo Caro (PER) 31.8
8.) Dashawn Jordan (USA) 23.4

Assista a final masculina completa

Foi uma briga até o último momento e com uma torcida que gritava até cansar, algo que não é comum em outras edições. Os preferidos do público foram Gustavo Ribeiro, que antes de e machucar, na terceira tentativa das manobras individuais, colocava notas acima de nove uma atrás da outra e Kelvin Hoefler, o único brasileiro presente.

As vaias ao Nyjah também foram presente. O maior ganhador da história da liga e desta edição, passou longe de ser o centro das atenções.

Feminino

Sem dúvida o momento mais emocionante da noite. As meninas levaram a torcida nas costas e vice versa. A cada manobras da Pamela rosa, que venceu a etapa, de Rayssa Leal, que virou o mascote da liga e Gabi Mazetto, a arquibancada reagia. O resultado foi o seguinte:

1.) Pamela Rosa (BRA) 25.2
2.) Rayssa Leal (BRA) 24.3
3.) Aori Nishimura (JPN) 21.6
4.) Candy Jacobs (NED) 16.2
5.) Mariah Duran (USA) 15.5
6.) Gabriela Mazetto (BRA) 14.9
7.) Alexis Sablone (USA) 9.6
8.) Yumeka Oda (JPN) 8.7

Tem algum tempo que o Brasil vem se destacando na categoria. Letícia Bufoni, que se machucou antes da etapa, foi que puxou essa fila, que nunca mais parou. Logo em seguida vieram Pamela Rosa, hoje com 20 anos e Rayssa Leal, com 11 e que ganhou a penúltima etapa. – A torcida brasileira foi sensacional. Sem dúvida isso me deu força para encarar essa final e levar o título. Dedico essa vitória ao meu tio maninho que faleceu ontem à noite – disse Pamela.

assista a final feminina completa

O nível técnico tem aumentado cada vez mais, manobras com flip entrando ou saindo e bordas mais altas, hoje viraram obrigação para quem quer competir na categoria, e as gerações mais novas aprenderam isso desde cedo.

Rayssa Leal, que é literalmente um criança, parece uma maquina de acertar manobras e a prova dessa evolução. Alem disso esbanja carisma. Logo após o campeonato ela disse em entrevista – Vim para cá para me divertir. Ter ficado em segundo lugar é como se fosse uma vitória mim. Estou muito, muito feliz e empolgada com o fato de estar nos Jogos Olímpicos. Ainda não está garantido, mas minha expectativa é grande –

O evento

Apesar de todo o show, a estrutura não tornou a vida de quem foi ver mais fácil. As filas, que davam a volta no quarteirão, mostraram a falta de preparação. Logo no primeiro dia tiveram que adiar o início das baterias em 2 horas, o público não tinha chegado. No segundo dia o problema se repetiu.

Apesar disso, tudo foi bem montado. Mas o fato de não poder levar se próprio skate para o evento de skate e o alto custo para se alimentar lá dentro descaracterizaram a essência do campeonato. As reclamações ao longo do dia eram frequentes, mas não atrapalharam o espetáculo, que foi compensando com um alto nível de skate.

Os videos de skate acabaram?


A indústria do skate, antes da proliferação das redes sociais, funcionava em um ritmo diferente, ditado por filmes que levavam anos para serem gravados. Eles traziam as novidades de estilo, manobras, picos para andar e foram fundamentais para criar o imaginário do skate. Mas com as redes sociais tudo mudou. Mas de que forma? 

O papel das marcas 

Cada marca trazia consigo uma ideologia e montava um time de skatistas de acordo com suas características. O time serviria para representar, atrair e divulgar a marca. É parecido com o que os Instagram posts fazem, mas com uma fidelização e uma identidade muito mais forte. As marcas se tornaram basicamente famílias e lidavam diretamente com honra e dignidade 

A maior forma de expressão dessas do período eram as video parts. Elas permitiam a distribuição e visualização do imaginário da marca. Nelas os skatistas mostram as melhores manobras que tem. 

Em conjunto com as manobras, cada video part têm sua estética, musica e lógica, o que realmente a torna em uma peça de arte e expressão, sempre inovadora, ao menos assim se espera. Vou listar algumas das mais icônicas: 

Sorry- Flip

Lançado em 2002, marcou o segundo vídeo de uma das marcas mais icônicas. Nele tinham parts do: Appleyard, Ali Boulala, Chalmers, Glifberg, Penny, Rowley, Saari e Bastien Salabanzi. Um time completamente insano marcado pela agressividade.

Mouse- Girl

Mouse é o segundo longa da marca. Dirigido por Spike Jonze, foi um dos primeiros videos e skate a ter uma trama e um diretor de peso. O filme é baseado no quadrinho “Maus” de art spigel. Forma incorporadas esquetes e narrativas entre as video parts de skate. A lista de participantes e grande: Ben Sanchez, Chico Brenes, Daniel Castillo, Eric Koston, Gabriel Rodriguez, Gino Iannucci, Guy Mariano, Jeron Wilson, Mike Carroll e Rick Howard

Almost- Round Three

Lançado em 2004, é o primeiro longa da Almost e tinha um time inesquecível. Dois dos maiores nomes fundadores da marca são Rodney Mullen e Daewon Song, que fizeram história na década de 80. O vídeo é dirigido por Matt Hill, CEO da marca de tênis Globe e lançou o “Queridinho da America”, Ryan Scheckler, para o mundo. O filme ainda conta com Chris Haslam, Cooper Wilt, William Patrick e Greg Lutzka

Fully Flared- Lakai

O Fully Flared faz parte do plano de dominação do mundo da Girl. O seu time era basicamente o mesmo, tinha os mesmo donos e os mesmos planos ambiciosos. O longa marcou o final da primeira década do séc. 2000 com efeitos especiais, um skate belíssimo, produção hollywoodiana e uma trilha sonora marcante. Foi dirigido por Spike Jonze e Ty Evans. Entre os participantes tinha: Mike Mo Capaldi, Anthony Pappalardo, Jesus Fernandez, Nick Jensen, Lucas Puig, JB Gillet, Cairo Foster, Alex Olson, Rick Howard, Mike Carroll, Brandon Biebel, Eric Koston, Guy Mariano e Marc Johnson.

Um necessário para quem gosta ou quer conhecer mais de skate. Guy Mariano ganhou todos os prêmios possíveis e marcou minha vida com “No cars go- Arcade fire”.

Baker- Three

Baker 3 influenciou minha vida mais do que eu gostaria e se assistirem o vídeo vão perceber o porque digo isso. O vídeo foi lançado em 2005 e conta com o time mais nojento e pirado de todos. As video parts se intercalam com cenas de alcoolismo, pornografia leve e censurada e muita violência verbal para uma criança de 12 anos.

O time é completamente insano e com um nível altíssimo: Dustin Dollin, Erik Ellington, Jim Greco, Bryan Herman, Jeff Lenoce, Terry Kennedy, Kevin Long, Andrew Reynolds, Theotis Beasley, Braydon Szafranski e Antwuan Dixon .

Agora vamos ao problema:

O problema das novas mídias

Neste artigo da Kingspin posted an article by Arthur. Levanta-se a discussão de que os videos de skate forma mudados pela quantidade de imagens disponíveis diariamente. Essa é uma discussão que aparece frequentemente em entrevistas e ocasionalmente em revistas e sites. A grande pergunta é: A internet está matando as Video parts? Não apenas como formato, mas também como arte.

O argumento é de que a proliferação de videos online, leva a uma saturação de informação. Somos expostas a tantas imagens que criamos a necessidade de consumir videoparts e clipes a todo momento, o que mata o método produtivo e a forma com que consumimos.

Afinal, um dos fatos pelo qual as videoparts nos marcaram é pela persistência em ver aquilo diversas vezes. Lembrarmos de cada manobra do Eric Koston em Menikmatti e idealizamos pois entende-se a importância da obra de modo apreciativo.

Mas o que ganhamos com o consumo diário de 100 contas de Instagram? A maioria sem nomes e que com uma rolagem de dedo volta ao desconhecimento? Apesar de no momento apreciar aquele vídeo, não se ganha um novo skatista preferido.

Desestímulo a gravar video parts 

Um vídeo novo costumava ser a carta na manga do marketing da indústria do skate. Uma ferramenta essencial para reconhecimento e crescimento, literalmente o cartão postal. Além disso, costuma trazer as NBD, never been done, manobras que nunca tinham sido feitas antes e que subiam o nível do skate. Agora virou uma forma de ganhar likes. A importãncia da part já não é  mais a mesma. 

O desestímulo em filmar as parts também é um grande fator. Com o tempo de produção de um longa metragem é possível lançar de 50 clipes de instagram, que no geral, alcançará muito mais gente. O risco de se passar 8 meses filmando para logo em seguida não conseguir 100 mil views no youtube e ser soterrado por notícias e vlogs é traumático. 

Sem estilo 

Outro fator notável é a mudança no estilo de skate. Antes, cada um tinha características extremamente distintas de fazer skate. Mesmo dentro da mesma marca tínhamos Ali boulala pulando escadas ridiculamente grandes e Sean cross com uma leveza absurda. 

No Instagram, ao entrar em uma pagina como a HellaClips, parece que são todos iguais. E claro, ao consumirmos vários conteúdos similares em estilo, a chance de copiarmos é maior. Assim, criamos padrões, as manobras passam a ser apenas mecânicas. 


Game of skate de gente grande

Photo: PixaBay
Photo: PixaBay

Uma das brincadeiras mais populares dentro do skate começou a se popularizar nos últimos anos. “Battle at The berrics” e “Slides & Grinds” são alguns exemplos de competições derivadas. Mas então, como funcionam essas competições e quais suas peculiaridades?

Introduzindo o “Game”

“Game of Skate” ou jogo do skate é a brincadeira que todo mundo que andou de skate conhece. É simples, tudo começa com um “pedra, papel e tesoura”, quem ganha vai primeiro, manda a manobra e os outros copiam. Quem errar ganha uma letra e quem completar S-K-A-T-E primeiro perde.

É um clássico, bom para aprender manobras novas, divertir e muitas vezes interagir com alguém que você não conhecia antes. No meu caso, logo que chegava, não importava o dia ou a pista, chamava alguém e lançava um “Ou, bora tirar um game?”, com o movimento de “pedra, papel e tesoura” engatilhado com a mão.

Com o tempo o jogo foi ficando mais sério. Em 2009 o site “The berrics”, atualmente um dos maiores do mundo, lançou o “Battle at the berrics”. Em sua primeira edição contou com 32 skatistas profissionais dos mais diversos estilos de skate.

Algumas cenas icônicas derivaram dessa primeira edição. Não tinha como dar errado. Eram as melhores e mais icônicas figuras do skate se divertindo em um “game”, tudo filmado e postado em um formato compacto.

Highlights da primeira edição do BATB

Durante as edições conseguintes, o formato foi se adaptando, dando espaço para outros skatistas. A temporada 7 por exemplo contou com os “Joes”, amadores não muito conhecidos. Desses “Joes” sairam Cody Cepeda, campeão naquele ano e alguns outros, como Chris Chann e Nick Holt.

Alguns brasileiros participaram durante os anos. Inclusive, o título atual está com Luan de Oliveira. É uma oportunidade maravilhosa de ver algumas manobras lindas, como o “360 flip” do Felipe Gustavo. Uma dádiva divina.

Confere esse game dos dois no BATB X… Nesse caso quem levou a melhor foi o Luan.

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Skate, Olimpíadas e esportivização

Um olhar sobre o skate em um mundo competitivo

Logo após as Olimpíadas do Rio, em 2016, foram anunciados 5 novos esportes no “hall” Olímpico, um deles sendo o Skate. Desde então, diversos debates têm sido travados quanto essa decisão. O leque de discussões passa pelo doping, forma de classificação, esportivização do skate e mercantilização. Hoje abordaremos diversos lados dessa discussão.

Como vai funcionar?

Serão 4 medalhas disputadas: Street masculino e feminino e park, masculino e feminino. Os reguladores da competição serão a ISF (International Skate Federation) em conjunto com a FIRS (Federation of Roller Sports) -Entidades desconhecidas pela maioria dos skatistas-. Serão 20 atletas para cada competição e terão que passar por classificatórias, como etapas nacionais e internacionais prévias aos jogos olímpicos. Leia mais aqui-.

Diferente das competições convencionais de skate, os juízes passarão por um processo de treinamento para serem certificados. Esse processo ocorrerá na china ainda esse ano. Assim com qualquer outro esporte participante dos jogos, testes Antidoping e avaliações físicas serão necessárias.

Olimpíadas!

Olimpiadas 1936, alemanha Jesse Owens recebendo medalha de ouro. Um negro vencendo o sistema nazista de “superioridade”.
Foto- Arquivo federal Alemão

Os jogos Olímpicos são um evento histórico, selado com a aura do maior e mais tradicional evento esportivo do mundo. Teve seu início na Grécia antiga e foi resgatado em 1896, com a primeira sede em Atenas, na Grécia, nada mais simbólico. Criada com o propósito de ser um tempo de paz entre as cidades gregas, em sua versão moderna logo perdeu esse significado. As olimpíadas foram palco de diversos movimentos e manifestações políticas, como Jesse Owens, negro que venceu o ouro em plena Alemanha nazista- Confira um pouco mais dessa história aqui– e os Panteras negras. Os jogos também serviram afirmação e demonstração de força política, como a União Soviética e o próprio nazismo na tentativa de provar sua superioridade racial.

Comitê dos jogos olimpicos de verão em 1896.
foto- by court photographer Eugen Albert from Berlin

Atualmente, essas polêmicas ainda existem, porém, mudaram um pouco. A esportivização passou ao âmbito comercial. Marcas como “Nike” e “Adidas” têm tomado a dianteira para promover um ambiente esportivo de interesses. Processo que tem matado marcas que nasceram dentro do skate, como a Fallen, confira um pouco mais aqui, e um pouco mais de como as grandes marcas tem afetado o skate aqui. Isso se dá em todos os âmbitos sociais, reflexo de uma sociedade com desejo de competição. A esportivização é exatamente a criação de objetivos e disputas com alguma finalidade. Até mesmo tarefas simples do cotidiano se tornam objetivos, a produtividade virou como sinônimo de esporte. Conceito oposto ao apresentado neste blog, “ócio”, diz tudo. ( Leia um pouco mais sobre “Gamificação” aqui)

A competição, disputa, são elementos necessários quando falamos de olimpíadas e outros eventos esportivos, afinal, o dinheiro está em jogo. Portanto, para analisarmos se o skate é compatível com esse ambiente, temos que entender um pouco sobre essa cultura.

Skate

Vs.

Outros esportes

O skate sempre foi assunto subalterno, rebelde. Como cito no “Democracia do skate”, a popularidade da cultura surgiu das subculturas que como forma de ajuste se juntaram em cima do skate. Culturas dos anos 80-90 como hip-hop, punk, misturados com muita revolta serviram como erupção desse movimento. Ou seja, a base de tudo é diferente de outros esportes como Futebol, que cumpre um papel social, mas posterior, adquirido com o tempo, desde o inicia tinha o caráter competitivo. Surgiu de competições entre bairros, classes na Inglaterra, englobando diversas disputas políticas.- Leia mais sobre a origem do futebol nesses dois artigos, esse e esse-.

Foto by: george__nick do Pixabay

O skate nunca teve Hoolingans, organizadas ou cores de time.

– Não sabe quem foram os hooligans? Clique aqui– Claro que as competições sempre estiveram presentes no skate, mas o caráter cooperativo sempre foi mais forte.

Regulamentação

Isso com certeza é novidade. A cultura do skate sempre foi livre, tanto para estilos quanto métodos de avaliação. Para alguns como a skatista Susana Sanches, os método de avaliação das competições são inapropriados para o skate. “Para mim, skate e olimpíadas não se misturam. O skate não pode ser avaliado da mesma forma que outros esportes. Meus skatistas preferidos não são aqueles que dão as tricks mais altas, limpas e rápidas- é sobre estilo, e isso é subjetivo. Skate é sobre curtir com os amigos, e não competir.” Algumas competições controversas do meio já abriram essa discussão, como os X-games e a Street league.

Alguns exemplos bizarros de uma distorção da cultura já esta sendo vista na China. Lá, meninos e meninas entre certas idades estão sendo selecionados para treinar o “esporte” em larga escala, como se fosse um emprego mesmo. Transformaram o skate em escolinhas de futebol, com treinadores e metas e treino. -veja mais aqui-.

Para tentar entender um pouco mais da percepção sobre skate nas olimpíadas realizei uma enquete com amostragem de 300 pessoas, de diversas cidades e idades.

Entre as respostas e justificativas estão diversos ditos benefícios como a visibilidade. “Ter o skate como um esporte olímpico valorizaria muito a modalidade, que ganharia mais visibilidade e daria mais oportunidades para novos skatistas” ou “Acredito que seria bom, pois quando um esporte se regulariza de tal forma, é um avanço pra todos os lados. Passa a existir uma seriedade maior por parte de finanças públicas, já que seremos vistos também na aba dos esportes. Profissionais são mais valorizados, novas pistas ganham cuidados maiores e grandes projetos podem surgir.” (O Google forms não não permite respostas nominais). Apesar das taxas de aprovação serem altas, a discussão tem que ser mais aprofundada. E como já discutimos acima, visibilidade para quem e para que?

Quanto a uma tema mais polêmico como drogas, listarei alguns artigos, matérias e casos relacionando o skate a essa cultura. História de Tas Papas; Jason Dill; Andrew Reynolds– The boss; Brandon Novak ; Artigo sobre drogas ; Alguns outros casos. Isso faz parte da cultura, mas não vou perpetuar o estereótipo.

Espero ter gerado intriga ou acrescentado algo com essa matéria. Se gostou, comente, se não, comente também. vamos ter um debate sadio.

Até a próxima. Texto: Guilherme Carrara

Homofobia no skate: A masculinidade idealizada

Homofobia no esporte como retrato de uma masculinidade toxica.

O preconceito dentro do esporte é um tema presente. Esportes mainstream como futebol e o vôlei têm debatido amplamente sobre o tema após diversos casos dentro e fora dos campos. Mas e o skate, como ele trata a homofobia e suas várias faces? Casos como o de Brian Anderson mostram que não muito diferente.

O caso Brian Anderson e a reação da cultura.

Vídeo parte de Brian Anderson pela Toy Machine em 1998

No ano retrasado, tivemos o primeiro skatista profissional que se assumiu gay. Brian Anderson, de 40 anos, falou abertamente sobre sua sexualidade em um vídeo da vice Magazine. Profissional desde 1998, foi um dos mais influentes skatistas durante os anos 2000. Suas video parts pela Girl, Toy Machine  e a marca de tênis ÉS ficaram para a história, marcando uma geração de jovens.

Apesar de sua influência, Anderson disse a Vice que nunca se sentiu a vontade para falar de sua sexualidade. Claro que nesses mais de 30 anos de carreira os rumores surgiram dentro da indústria, porém, a demora para assumir é extremamente significativa.  

Vídeo da Vice sobre Anderson e sua sexualidade

Apesar do medo de assumir, a resposta do público foi extremamente positiva. Logo após a entrevista e seu anúncio no Instagram, as redes encheram de comentário de apoio e parabenizações. Anderson sabia que ao se assumir escancararia uma porta para outros nomes; era uma questão de representatividade. E como ele próprio diz, “ser gay hoje é difícil, mas nem se compara com algum tempo atrás”. A pressão do esporte era visível, é só assistir alguns clássicos da época, como “Round 3” da Almost, “Sorry” da Flip ou  “Mouse” da Girl. O modelo de skatista exigia uma masculinidade descarada: o mulherengo, alcoólatra e hipersexual. Era difícil correr o risco naquele período. O caso de Werne fala um pouco mais sobre repressão.

Vídeo da Transworld magazine em que aparece Tim Von Werne

Na  década de 80, Werne teve um caso polêmico com seu patrocinador, a Birdhouse.  Desde o início Werne era abertamente assumido, entretanto, seu patrocinador “pediu” para que o tema não fosse mais comentado. Em declaração a uma revista na década de 90, Werne, pouco antes de virar profissional, falou abertamente sobre sua sexualidade e antes do lançamento, a marca vetou a publicação. A afirmação era de que não eram preconceituosos, mas que “pegaria mal”. Ele comenta sobre o caso em entrevista à  Huck: “Aquilo marcou um ponto na minha relação com a Birdhouse, e talvez o skate em geral. Ficou bem claro que se eles não estivessem dispostos a publicar o artigo, eu teria que “voltar para o armário se quisesse ser profissional, e eu não estava confortável em fazer isso. Nunca tive vergonha de ser gay e não queria começar a sentir.” -Se quiser saber mais clique aqui-. A reação mostra um profundo preconceito, com a defesa de que mancharia sua imagem. Isso nos leva à imagem da marca, qual seria o padrão aceitável de skatista para não “pegar mal”?

Masculinidade no esporte

Mas e daí? o que importa um skatista ser gay ou não? que diferença faz? A diferença está na imagem de masculinidade do esportista.  Tanto no skate quanto no futebol ou rugby, criamos padrões e regras como forma de reafirmação daquele meio. É o famoso “Role model” ou figura modelo; e o esporte desde sempre tem sido contaminado com isso. Podemos usar de exemplo o beijo de Emerson Sheik, que após postar uma foto em 2013 beijando um amigo, teve protestos no centro de treinamento com a faixa “Aqui é lugar de homem, ou a polêmica da torcida Queer, um grupo em que torcedores homossexuais poderiam se sentir livres de opressão ao praticar futebol e foi altamente criticados. – Ambos os casos são discutidos neste artigo sobre masculinidade- Em artigo publicado em 2013, sobre homofobia e esporte, Gustavo Bandeira, mestre em educação pelo UFRGS afirma:

“O esporte moderno é uma arena de construção de gênero. Nessa construção, a masculinidade, como na ampla maioria das esferas da cultura, ocupa um lugar privilegiado. Ao mesmo tempo em que os homens são beneficiados, inclusive financeiramente, pelas representações positivas de seu gênero, essa valorização poderá acarretar em dificuldades para aqueles homens que não correspondam exatamente à norma produzida/esperada como adequada para as masculinidades no esporte. “

Como já citei quando me referi aos vídeos de skate, esse padrão de masculinidade não se altera. Em uma matéria da Vice, Max Dubler, skatista gay com mais de 30 anos nas costas, comenta o caso Brian Anderson e o possível impacto na cultura. Ele diz em tom jocoso: “Mas isso não significa que o skate é super homofóbico, certo? ‘A maioria dos skatistas é d boa com gays’, você diz. Não, com exceção de alguns casos, a indústria do skate tem um histórico recheado e repulsivo de homofobia”. Ele tem uma visão completamente negativa sobre a cultura e diz que levará anos até que esse passado possa começar a ser alterado. Ele cita alguns outros casos complicados da indústria.- Vou deixar o link aqui-.

Video part de Yann Horowitz, outro skatista que se assumiu gay. Outro caso interessante- leia mais aqui-.

E a homofobia no Brasil?

O problema não muda, possivelmente fica ainda mais arenoso. A cultura norte americana do skate é a mais antiga, surgiu lá, e mesmo com tanto tempo só teve o primeiro profissional assumindo ano passado. A discussão aqui ainda é muito calada. Fui à praça Roosevelt, perguntei, mandei mensagem para um monte de gente e consegui apenas um contato que estivesse disposto a falar sobre o tema. Ao perguntar se conheciam algum skatista gay, todos pensavam um pouco e respondiam um claro “não”.

Guilherme Magalhães, skatista de São Paulo

Guilherme Magalhães, bissexual de 19 anos, foi o único que aceitou conversar sobre o assunto. Ele falou um pouco sobre o padrão de masculinidade dentro da cultura. Apesar de sua bissexualidade, aparenta ser bem “heteronormativo”, o que na opinião dele ajudou a ser mais aceito, mas que ainda assim rolam alguns atritos: “Na verdade não, meus amigos lidam bem com a minha bissexualidade e tal. Mas eu tenho certeza que um gay mais afeminado seria olhado torto, até evitado”.  

Ele ainda comenta que ainda que existam gays e minas que andam de skate como “hobbie”, quando analisamos as competições e o meio profissional eles desaparecem. Isso é perceptível não apenas pelos profissionais. Ao ver as competições do interior, a categoria feminina é inexistente, mesmo existindo um campeonato brasileiro de skate feminino; a presença de gays que falam abertamente sobre isso é nula.

Afirmações como essas mostram que o Brasil é mais um país que replica o preconceito nos esportes, e o skate não é diferente. Não pode-se afirmar que existem gays profissionais, mas se existem, não se sentem à vontade para conversar sobre. O caso é muito similar ao futebol. Na série “BRAZICA” a Vice Brasil explora esse tema dentro do futebol. Os comentários como “bixa” mostram a conivência da torcida, esportistas e jornalistas quanto o preconceito. Como já citei acima, os mesmo estereótipos se aplicam a ambas culturas; reflexo de um preconceito geral. Reflexo do país que mais mata homossexuais no mundo; e que em pleno 2019 ainda está na luta pela criminalização da homofobia.

O fato de não ter conseguido mais de uma fonte para esse matéria é significativo. É preciso discutir temas como esse dentro do skate. Assim como falei na matéria “Democracia do skate” sobre o caráter de aceitação e diversidade da cultura, devemos ser pioneiros nesse debate, expor casos e espalhar a inclusão. Ao ponto de histórias como a de Brian Anderson e Tim Von Werner serem apenas marcas escuras de um passado que não é mais realidade.

Texto: Guilherme Carrara

Foto do time de Rugby da Nova Zelândia: @Waseem Farooq

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