Um olhar sobre o skate em um mundo competitivo
Logo após as Olimpíadas do Rio, em 2016, foram anunciados 5 novos esportes no “hall” Olímpico, um deles sendo o Skate. Desde então, diversos debates têm sido travados quanto essa decisão. O leque de discussões passa pelo doping, forma de classificação, esportivização do skate e mercantilização. Hoje abordaremos diversos lados dessa discussão.
Como vai funcionar?
Serão 4 medalhas disputadas: Street masculino e feminino e park, masculino e feminino. Os reguladores da competição serão a ISF (International Skate Federation) em conjunto com a FIRS (Federation of Roller Sports) -Entidades desconhecidas pela maioria dos skatistas-. Serão 20 atletas para cada competição e terão que passar por classificatórias, como etapas nacionais e internacionais prévias aos jogos olímpicos. Leia mais aqui-.
Diferente das competições convencionais de skate, os juízes passarão por um processo de treinamento para serem certificados. Esse processo ocorrerá na china ainda esse ano. Assim com qualquer outro esporte participante dos jogos, testes Antidoping e avaliações físicas serão necessárias.
Olimpíadas!

Foto- Arquivo federal Alemão
Os jogos Olímpicos são um evento histórico, selado com a aura do maior e mais tradicional evento esportivo do mundo. Teve seu início na Grécia antiga e foi resgatado em 1896, com a primeira sede em Atenas, na Grécia, nada mais simbólico. Criada com o propósito de ser um tempo de paz entre as cidades gregas, em sua versão moderna logo perdeu esse significado. As olimpíadas foram palco de diversos movimentos e manifestações políticas, como Jesse Owens, negro que venceu o ouro em plena Alemanha nazista- Confira um pouco mais dessa história aqui– e os Panteras negras. Os jogos também serviram afirmação e demonstração de força política, como a União Soviética e o próprio nazismo na tentativa de provar sua superioridade racial.

foto- by court photographer Eugen Albert from Berlin
Atualmente, essas polêmicas ainda existem, porém, mudaram um pouco. A esportivização passou ao âmbito comercial. Marcas como “Nike” e “Adidas” têm tomado a dianteira para promover um ambiente esportivo de interesses. Processo que tem matado marcas que nasceram dentro do skate, como a Fallen, confira um pouco mais aqui, e um pouco mais de como as grandes marcas tem afetado o skate aqui. Isso se dá em todos os âmbitos sociais, reflexo de uma sociedade com desejo de competição. A esportivização é exatamente a criação de objetivos e disputas com alguma finalidade. Até mesmo tarefas simples do cotidiano se tornam objetivos, a produtividade virou como sinônimo de esporte. Conceito oposto ao apresentado neste blog, “ócio”, diz tudo. ( Leia um pouco mais sobre “Gamificação” aqui)
A competição, disputa, são elementos necessários quando falamos de olimpíadas e outros eventos esportivos, afinal, o dinheiro está em jogo. Portanto, para analisarmos se o skate é compatível com esse ambiente, temos que entender um pouco sobre essa cultura.
Skate
Vs.
Outros esportes
O skate sempre foi assunto subalterno, rebelde. Como cito no “Democracia do skate”, a popularidade da cultura surgiu das subculturas que como forma de ajuste se juntaram em cima do skate. Culturas dos anos 80-90 como hip-hop, punk, misturados com muita revolta serviram como erupção desse movimento. Ou seja, a base de tudo é diferente de outros esportes como Futebol, que cumpre um papel social, mas posterior, adquirido com o tempo, desde o inicia tinha o caráter competitivo. Surgiu de competições entre bairros, classes na Inglaterra, englobando diversas disputas políticas.- Leia mais sobre a origem do futebol nesses dois artigos, esse e esse-.

O skate nunca teve Hoolingans, organizadas ou cores de time.
– Não sabe quem foram os hooligans? Clique aqui– Claro que as competições sempre estiveram presentes no skate, mas o caráter cooperativo sempre foi mais forte.
Regulamentação
Isso com certeza é novidade. A cultura do skate sempre foi livre, tanto para estilos quanto métodos de avaliação. Para alguns como a skatista Susana Sanches, os método de avaliação das competições são inapropriados para o skate. “Para mim, skate e olimpíadas não se misturam. O skate não pode ser avaliado da mesma forma que outros esportes. Meus skatistas preferidos não são aqueles que dão as tricks mais altas, limpas e rápidas- é sobre estilo, e isso é subjetivo. Skate é sobre curtir com os amigos, e não competir.” Algumas competições controversas do meio já abriram essa discussão, como os X-games e a Street league.
Alguns exemplos bizarros de uma distorção da cultura já esta sendo vista na China. Lá, meninos e meninas entre certas idades estão sendo selecionados para treinar o “esporte” em larga escala, como se fosse um emprego mesmo. Transformaram o skate em escolinhas de futebol, com treinadores e metas e treino. -veja mais aqui-.

Para tentar entender um pouco mais da percepção sobre skate nas olimpíadas realizei uma enquete com amostragem de 300 pessoas, de diversas cidades e idades.
Entre as respostas e justificativas estão diversos ditos benefícios como a visibilidade. “Ter o skate como um esporte olímpico valorizaria muito a modalidade, que ganharia mais visibilidade e daria mais oportunidades para novos skatistas” ou “Acredito que seria bom, pois quando um esporte se regulariza de tal forma, é um avanço pra todos os lados. Passa a existir uma seriedade maior por parte de finanças públicas, já que seremos vistos também na aba dos esportes. Profissionais são mais valorizados, novas pistas ganham cuidados maiores e grandes projetos podem surgir.” (O Google forms não não permite respostas nominais). Apesar das taxas de aprovação serem altas, a discussão tem que ser mais aprofundada. E como já discutimos acima, visibilidade para quem e para que?
Quanto a uma tema mais polêmico como drogas, listarei alguns artigos, matérias e casos relacionando o skate a essa cultura. História de Tas Papas; Jason Dill; Andrew Reynolds– The boss; Brandon Novak ; Artigo sobre drogas ; Alguns outros casos. Isso faz parte da cultura, mas não vou perpetuar o estereótipo.
Espero ter gerado intriga ou acrescentado algo com essa matéria. Se gostou, comente, se não, comente também. vamos ter um debate sadio.
Até a próxima. Texto: Guilherme Carrara
