A indústria do skate, antes da proliferação das redes sociais, funcionava em um ritmo diferente, ditado por filmes que levavam anos para serem gravados. Eles traziam as novidades de estilo, manobras, picos para andar e foram fundamentais para criar o imaginário do skate. Mas com as redes sociais tudo mudou. Mas de que forma?
O papel das marcas
Cada marca trazia consigo uma ideologia e montava um time de skatistas de acordo com suas características. O time serviria para representar, atrair e divulgar a marca. É parecido com o que os Instagram posts fazem, mas com uma fidelização e uma identidade muito mais forte. As marcas se tornaram basicamente famílias e lidavam diretamente com honra e dignidade
A maior forma de expressão dessas do período eram as video parts. Elas permitiam a distribuição e visualização do imaginário da marca. Nelas os skatistas mostram as melhores manobras que tem.
Em conjunto com as manobras, cada video part têm sua estética, musica e lógica, o que realmente a torna em uma peça de arte e expressão, sempre inovadora, ao menos assim se espera. Vou listar algumas das mais icônicas:
Sorry- Flip
Lançado em 2002, marcou o segundo vídeo de uma das marcas mais icônicas. Nele tinham parts do: Appleyard, Ali Boulala, Chalmers, Glifberg, Penny, Rowley, Saari e Bastien Salabanzi. Um time completamente insano marcado pela agressividade.
Mouse- Girl
Mouse é o segundo longa da marca. Dirigido por Spike Jonze, foi um dos primeiros videos e skate a ter uma trama e um diretor de peso. O filme é baseado no quadrinho “Maus” de art spigel. Forma incorporadas esquetes e narrativas entre as video parts de skate. A lista de participantes e grande: Ben Sanchez, Chico Brenes, Daniel Castillo, Eric Koston, Gabriel Rodriguez, Gino Iannucci, Guy Mariano, Jeron Wilson, Mike Carroll e Rick Howard
Almost- Round Three
Lançado em 2004, é o primeiro longa da Almost e tinha um time inesquecível. Dois dos maiores nomes fundadores da marca são Rodney Mullen e Daewon Song, que fizeram história na década de 80. O vídeo é dirigido por Matt Hill, CEO da marca de tênis Globe e lançou o “Queridinho da America”, Ryan Scheckler, para o mundo. O filme ainda conta com Chris Haslam, Cooper Wilt, William Patrick e Greg Lutzka
Fully Flared- Lakai
O Fully Flared faz parte do plano de dominação do mundo da Girl. O seu time era basicamente o mesmo, tinha os mesmo donos e os mesmos planos ambiciosos. O longa marcou o final da primeira década do séc. 2000 com efeitos especiais, um skate belíssimo, produção hollywoodiana e uma trilha sonora marcante. Foi dirigido por Spike Jonze e Ty Evans. Entre os participantes tinha: Mike Mo Capaldi, Anthony Pappalardo, Jesus Fernandez, Nick Jensen, Lucas Puig, JB Gillet, Cairo Foster, Alex Olson, Rick Howard, Mike Carroll, Brandon Biebel, Eric Koston, Guy Mariano e Marc Johnson.
Um necessário para quem gosta ou quer conhecer mais de skate. Guy Mariano ganhou todos os prêmios possíveis e marcou minha vida com “No cars go- Arcade fire”.
Baker- Three
Baker 3 influenciou minha vida mais do que eu gostaria e se assistirem o vídeo vão perceber o porque digo isso. O vídeo foi lançado em 2005 e conta com o time mais nojento e pirado de todos. As video parts se intercalam com cenas de alcoolismo, pornografia leve e censurada e muita violência verbal para uma criança de 12 anos.
O time é completamente insano e com um nível altíssimo: Dustin Dollin, Erik Ellington, Jim Greco, Bryan Herman, Jeff Lenoce, Terry Kennedy, Kevin Long, Andrew Reynolds, Theotis Beasley, Braydon Szafranski e Antwuan Dixon .
Agora vamos ao problema:
O problema das novas mídias
Neste artigo da Kingspin posted an article by Arthur. Levanta-se a discussão de que os videos de skate forma mudados pela quantidade de imagens disponíveis diariamente. Essa é uma discussão que aparece frequentemente em entrevistas e ocasionalmente em revistas e sites. A grande pergunta é: A internet está matando as Video parts? Não apenas como formato, mas também como arte.
O argumento é de que a proliferação de videos online, leva a uma saturação de informação. Somos expostas a tantas imagens que criamos a necessidade de consumir videoparts e clipes a todo momento, o que mata o método produtivo e a forma com que consumimos.
Afinal, um dos fatos pelo qual as videoparts nos marcaram é pela persistência em ver aquilo diversas vezes. Lembrarmos de cada manobra do Eric Koston em Menikmatti e idealizamos pois entende-se a importância da obra de modo apreciativo.
Mas o que ganhamos com o consumo diário de 100 contas de Instagram? A maioria sem nomes e que com uma rolagem de dedo volta ao desconhecimento? Apesar de no momento apreciar aquele vídeo, não se ganha um novo skatista preferido.
Desestímulo a gravar video parts
Um vídeo novo costumava ser a carta na manga do marketing da indústria do skate. Uma ferramenta essencial para reconhecimento e crescimento, literalmente o cartão postal. Além disso, costuma trazer as NBD, never been done, manobras que nunca tinham sido feitas antes e que subiam o nível do skate. Agora virou uma forma de ganhar likes. A importãncia da part já não é mais a mesma.
O desestímulo em filmar as parts também é um grande fator. Com o tempo de produção de um longa metragem é possível lançar de 50 clipes de instagram, que no geral, alcançará muito mais gente. O risco de se passar 8 meses filmando para logo em seguida não conseguir 100 mil views no youtube e ser soterrado por notícias e vlogs é traumático.
Sem estilo
Outro fator notável é a mudança no estilo de skate. Antes, cada um tinha características extremamente distintas de fazer skate. Mesmo dentro da mesma marca tínhamos Ali boulala pulando escadas ridiculamente grandes e Sean cross com uma leveza absurda.
No Instagram, ao entrar em uma pagina como a HellaClips, parece que são todos iguais. E claro, ao consumirmos vários conteúdos similares em estilo, a chance de copiarmos é maior. Assim, criamos padrões, as manobras passam a ser apenas mecânicas.
