Democracia do skate

Praça Roosevelt, sp. Photo bt: Guilherme Salviano


Aceitação e diversidade dentro de uma cultura marginalizada.

“Só quem já andou de skate sabe como é.  Se tem o boyzinho, com as roupas tudo de marca e o molequinho da perifa, todo fudido, não muda nada. O role continua”. Afirmou, Vinicius Motta, skatista da cidade de Campo grande. “Isto é a democracia do skate; pobre, rico, preto ou branco, com o skate no pé vira brother”.

Um pouco de História

A convergência entre o skate e a democracia tem longa data. O skate chegou no brasil na Década de 60, ainda muito caro, limitado as classes que viajavam ao exterior. Após a queda da ditadura militar, tudo mudou. Quando Tancredo neves assumiu a presidência o Brasil tinha 41% de sua população abaixo de 25 anos. Então, inspirados pela cultura norte América, o skate começou a ganhar vida como expressão, e junto ao rap e o punk, virou ícone da contracultura paulista. Roosevelt, Anhangabaú eram os pontos máximos da expressão.

Anhangabaú, sp. Um dos picos mais clássicos o skate no brasil.
Photo by: Dornicke

Antes de Collor assumir a presidência o skate brasileiro vivia uma era de ouro. Em 89 o brasil tinha acabado de mostrar sua força no esporte. Com uma delegação de atletas conquistou um histórico quarto lugar com Lincoln Ueda na categoria vertical no campeonato mundial da Alemanha. Porém, com as novas políticas econômicas de Collor, os patrocínios, viagens e campeonatos cessaram. O skate Brasileiro caiu no esquecimento da mídia.  

Lincoln Ueda (2012)
Photo by: Alex Carvalho

Neste ponto começa a resistência do skate. Apesar de longe das mídias, o esporte cresceu. “Foi minha salvação” disse Luan de oliveira, hoje, um dos maiores skatistas do mundo, nascido em Porto alegre e órfão. Por fazer parte da contracultura começou a agregar todos aqueles que não se encaixavam. Assim é possível analisar dentro da cena diversos grupos, que no skate puderam encontrar um ambiente amigável, para alguns literalmente uma família. Como disse o skatista Bob Burnquist “skate não é ponto, não é ganhar, é arte porra”. Um documentário que explica bem esse esse processo é o Dirty Money

Vídeo Part Luan Oliveira pela revista Thrasher, que já virou um clássico.

            Competição?

Nos tempos de escola, todos tivemos o momento da escolha de times na educação física. Os mais fortes, atléticos sempre eram escolhidos primeiro, e então ficavam todos aqueles que não se encaixavam no perfil desejado. Ou então no jogo de basquete em que os mais baixinhos são sempre rejeitados. No skate a coisa funciona de uma forma diferente, sua força física, tamanho, não são elementos definidores do seu sucesso no Meio.

O skate é praticado individualmente, o que o tornaria extremamente não cooperativo.  Mas não é o que acontece. Matheus Souza de 22 anos explica sua visão: “ao mesmo tempo que o skate é um esporte individual, é um esporte que está todo mundo com todo mundo, então, até o que perdeu sabe apreciar o que ganhou, o que é raro em outros esportes. Geralmente é um contra o outro. No skate sou eu contra mim mesmo e você contra você mesmo, é tipo uma superação, e se você vende essa batalha contra você mesmo, todo mundo fica feliz. Isso que é o da hora”. A visão do skatista para com outros que competem com ele não é como seu adversário, mas sim alguém que esta na mesma batalha que ele. Alguém que também esta se esforçando ao máximo para conseguir a trick mais bonita, a que mais tem estilo. Apesar de existir formas de sucesso dentro da cultura, o respeito e amizade são soberanos. Continua Natan Carrara, 16 anos e skatista de amador de Bauru sobre a diferença do skate:  

Natan Carrara, Bauru, sp.
Photo: Guilherme Carrara

“é diferente o skate de outros esportes. O surf, BMX, e outros esporte radicais são bem mais inclusivos. Eles são individuais, mas ao mesmo tempo não são. As pessoas tão sempre te ajudando a mandar uma manobra, em campeonato as pessoas te apoiam em vez de ir contra para ganhar de você, é bem diferente, é mais um estilo de vida do que uma competição”.

A visão democrática

            Por conta de a cena do skate brasileiro ter vivido a grande depressão da dec. de 90 ele se tornou muito malvisto socialmente. A periferização e o preconceito associaram a cultura ao consumo de drogas e a um estilo de vida destrutivo e sem perspectiva.  “Meu pai não me apoiava no skate, queria que eu fizesse faculdade, skate para ele era coisa de vagabundo maconheiro”, Vinicius Bomfim. Entretanto, apesar de ser prejudicial, o preconceito construiu o skate como ele é. A cena passou a ser descentralizada e descaracterizada. “Tínhamos os “gangsters”, o pessoal do punk, aí começou a chegar o pessoal rebelde e foi diversificando”. A marginalidade juntou diversos tipos de grupos permitindo um diálogo através do esporte. A cena criou vida própria.

            Com o tempo o esporte juntou as mais diferentes classes. “Tenho amigos de todas as classes econômicas e sociais no skate. sem exceção!”, disse Matheus Souza, ou então “ando com pessoas de todo jeito, principalmente de classes econômicas abaixo de mim”, Vinicius Bomfim. Características que definem a cena do skate brasileiro.

Vídeo Part Higor Conte, skate Bauruense.

Em qualquer caso, o skate funciona como um remédio social, em que todo tipo de gente é aceita. Não apenas um esporte, mas sim um estilo de vida, uma forma de visualização do mundo. Andar sobre a quatro rodas, flutuando sobre as ruas de asfalto, é muito mais do que um movimento físico. Envolve sentimento, emoção, e a movimentação de toda uma cultura e história que vem ao seu redor.

          Enfim, comente o que acha sobre o assunto. Se gostou do conteúdo, compartilha, deixa aquele comentário. Se não gostou coloque sua opinião humildemente. É isso e até a próxima.

5 comentários em “Democracia do skate

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